.

%d 13UTC %B 13UTC %Y - textos sobre o artista

 

Do desconforto e outros ritos

Tendo como preferência explícita ir ao encontro de determinadas coisas, delimitadas sob a perspectiva da relação luz e obscuridade, a imagem surge como espaço de implementação. Mergulho na superfície.

 

Neste passo, encontra-se o interior da estrutura de pensamento que designa um local de ancoragem, abaixo das camadas líquidas do horizonte. O marejar pulveriza-se em ar rarefeito. Efeito desconcertante onde a água torna-se invisível mas conserva-se em outros modos de existência, perdendo suas características.

 

O embate entre duas superfícies de corpos distintos, portanto incompatíveis, teima em  manifestar-se por meio de grunhidos, mesmo que mínimos, os quais se pode acessar, causando assim, e, acima de tudo, o pleno agrado. As dissonâncias sempre impõem-se como fios a agarrar. Atentar aos sons das formas dissonantes.

 

Ali onde vemos uma certa clareza de contento visual, algumas pequenas partes dividem-se, transformando-se em ínfimos ornamentos que nos tocam, nos acariciam, mais dos que nos acomodam. Do prazer do gesto e daquilo que nos alcança do plano para fora.

 

Mas, a quietude dos percursos nem sempre se mantém. Ela registra um movimento tenso e intenso do desejo como desígnio de quase tranquilizar o impulso, brotar dele imagem. Do desconforto e outros ritos.  

 

Ações sobre um campo visível, líquido-aleatórias, não se diferenciam jamais daquele que as exercem, no entanto, distinguem-se aqui duas dimensões espaciais, aquilo que habita o plano e aquele que faz habitar.  Ambas posições, em relação ao plano, são deliberadamente contestadas. Transitar.

 

Quando há dilatação esse trânsito se permuta. Por contingência da não separação das partes e sua decorrente falta de encaixe, o sujeito envolvido se separa. Bi-partição crítica em mergulho total.

 

Acontece assim: odores se modificam, enquanto aquilo que se aproxima da pele e move o corpo retorna por lembrança. Caminha reconhecendo os anteparos, as pequenas formas de vida que se interpõem à sua existência. Tudo o observa e se transforma diretamente em impressão no corpo.

 

Fernanda Gassen, para a mostra Matéria Superordinária Abundante, 2014.

 

MARCOS DA RAZÃO VALENTE E DO SENTIDO FAISCANTE

Entrei na Quarta Cor em julho de 2008, ainda sem saber. Apenas no momento que escrevo este texto, passado um ano, alcanço a clareza do que Cristiano Lenhardt me propunha e do que eu acompanhei e vivi, primeiro como interlocutora constante e depois como crítica convidada pela Temporada de Projetos do Paço das Artes[1]. Trata-se de um conjunto de vídeo-instalação, experimentos em gravura e texto-vestígio, mas, quando tudo começou, era uma hipótese, que virou projeto, que ele foi experimentando e nós fomos percebendo juntos. Temos marcos temporais claros e por isso opto por construir meu relato para este catálogo[2] tentando compartilhá-los e recuperar neles os estágios de nosso percurso.

Ganhei um presente
Cristiano costuma dar presentes em papéis seda gravados, a serem repassados do presenteado a um próximo e a outro e a outro. Era meu aniversário, poucos meses antes da abertura de uma individual dele no Recife. Recebi, numa das delicadas sedas, uma roupa e o pedido de que fosse usada no vernissage. Tratava-se de um colant em lycra de mangas e calças compridas. Uma pele geométrica e vibrante nas medidas fiéis do meu corpo.
O recebi e admirei como uma obra, protelei a resposta de que não teria coragem de usar. Chegou o dia, de fato não usei, mas algo a mais entendi, durante uma performance em que Cristiano, vestido de corações verdes, lia alto um livro de histórias que vinha escrevendo. O colant era um convite para que entrasse na dimensão do trabalho e me tornasse personagem, junto com outros poucos, daquelas histórias.

Ele me alertou sobre novos experimentos
Noutra tarde, em sua casa, sentou-me diante de um monitor e disse que preparasse o olhar para fugas esporádicas de descanso. Vi no vídeo a alternância frenética de cores opostas e notei a ausência dos personagens que até então Cristiano costuma retirar dos almanaques e das fábulas para suas histórias. No novo experimento, a imagem perderia a função pictórica e, projetada em faces iguais, rente às arestas de uma quina de parede, constituiria um cubo imersivo. Com essa inflexão espacial, o artista parecia amortizar a membrana separatória entre o plano dos humanos e o dos seres imaginários, expulsá-los do lugar de representação para o de vivência.
O projeto foi comissionado pelo Paço e, antes de qualquer certeza do artista e minha sobre a sua forma final, para atender ao cronograma editorial do museu, precisei começar a escrever. Fui guiada por vislumbres da vídeo-instalação montada como ele planejara, mas, principalmente, pelo trecho de um diálogo entre um escritor valente e um homem branco de olhos faiscantes. Os personagens eram preponderantes para o experimento da Quarta cor, mas permaneceriam ausentes da tela de vídeo. Na lógica de Cristiano, o encontro entre eles era responsável pela combinação de método e intuição, ciência e poesia na busca de uma cor nunca antes vista.

Vivemos a verdadeira imersão
A essa altura já sabíamos que a suposta cor nasceria da observação atenta dos hiatos entre quadros de vídeo, que a imagem de desejo era fruto de um efeito de percepção. Valendo-se de um recurso básico da física ótica, o artista desenvolveria seu laboratório sobre a atividade criadora. Neste âmbito, misturaria a assertividade das provas científicas com valores como a subjetividade e a circunstancialidade que, ao menos no campo da arte, tornam qualquer evidência sempre relativa e evanescente.
Apesar de a criação ser o problema central deste projeto, não lhe concerne a temática da originalidade. Nem conforme os juízos pragmático-industriais das ciências exatas e aplicadas, nem segundo o ideário progressista que pautou as vanguardas artísticas da modernidade. Se há uma noção de “original” ou “novo” cabível à Quarta cor, ela só pode ser vinculada com a busca de alternativas no nosso repertório acumulado de formas. Meditar ante o familiar. Reler e reencenar o que padroniza a rotina. Tornar públicas e passíveis de compartilhamento um conjunto infinito de táticas digressivas. Envolvê-las em papel seda, presenteá-las e presentear-se com seus sucessivos destinos.
A Quarta cor existe como um fluxo de comunicação. Isso ficou claro para mim após as trocas de e-mails entre o artista, eu, e Michel Zózimo, também artista e amigo de Cristiano, um mês antes da abertura da exposição. Na presença de um terceiro interlocutor, desarticulamos a dualidade que poderia existir na situação de um acompanhamento crítico e praticamos uma especulação fragmentada e delirante sobre alguns aspectos do projeto. Este material, logo editado e publicado[3] como uma deriva de comentários anônimos, cunhou uma identidade coletiva. Nós três, e potencialmente qualquer outro, poderíamos exercer muitas vozes naquela que nascia como uma membrana não de separação mas de continuidade.

Estendeu-se o convite
Abril era o mês de exibição do resultado de pesquisa d’A quarta cor. Depois das trocas por email, pouco tinha me atualizado sobre as soluções encontradas por Cristiano para tudo que havíamos problematizado. Na montagem, fui apresentada à página envelhecida do texto-vestígio em que dialogavam escritor e homem branco e aos estudos de propagação da luz que o artista fez em litogravura. Além disso, me deparei com uma decisão radical para o cubo de cor. Ele não mais se projetava sobre as paredes em dimensões imersivas, mas recolhia-se num cubo objetual translúcido disposto no centro do ambiente. Vi primeiro sua seqüencia de tons banhando o vão desocupado do museu. No evento de abertura da exposição, vi o seu magnetismo misturar-se aos movimentos do público presente.
A quarta cor se completa na inversão. Não mais atrai para si as narrativas de Cristiano Lenhardt, mas rebate para fora de si o desejo do artista em expandir zonas de encontro, confronto e criação. Assim, meio valente, meio faiscante, entre os iguais, o trabalho acredita poder recuperar sua potência interventiva sobre o mundo. Assim venho entendendo, através dos percursos e companhias com que me presenteou, desde o primeiro convite.

A quarta cor, de Cristiano Lenhardt, por Ana Maria Maia.

[1] O museu fica situado em São Paulo, dentro da USP. A Temporada de Projetos é um dos seus principais programas, que, desde 1990, seleciona anualmente, através de um edital público, propostas artísticas e curatoriais para serem exibidas no espaço físico do museu.
[2] A versão original desse texto foi publicada no catálogo da Temporada de Projetos 2009 (pp. 46-57).
[3] Esse conteúdo foi publicado no site do Paço das Artes como parte do acompanhamento crítico: http://www.pacodasartes.org.br/temporada-de-projetos/2009/artistas/cristianolenhardt.aspx. (visualizado em 19/11/2012)